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Memórias

 

Uma questão de atitude

Por Orlando Senna

O Vídeo Mostra Fortaleza, inventado por Eusélio Oliveira e Francis Vale em 1991, durante a maior crise do cinema brasileiro nos tempos conhecidos (governo Collor), foi mais um passo do Ceará em direção ao seu desejo e vocação de referenciar-se ao cinema. Vinte anos antes Eusélio tinha fundado a Casa Amarela da Universidade Federal do Ceará, com um programa de capacitação para cinema, animação, fotografia e de formação de público. Seis anos antes, em 1986, ainda pelas mãos de Eusélio, jovens cearenses foram buscar no exterior uma formação mais sólida, em um nível que não existia no Brasil.

A Vídeo Mostra, uma das atividades da Casa Amarela Eusélio Oliveira, foi crescendo e se adaptando e se reinventando. Em 1995 se rebatizou Festival Cine Ceará, passando de mostra local a evento nacional de cinema e vídeo. Em 2006 fixou as tendências de internacionalização que o acossavam desde quando os jovens estudantes retornaram da Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños e de outras experiências extra fronteiras — e cresceu para Cine Ceará, Festival Ibero-americano de Cinema ou, como é conhecido no mundo, Cine Ceará.

Esse impulso progressivo interagiu e foi reforçado e reforçou outros eventos importantes na cultura audiovisual cearense: o programa Luz Câmera Imaginação, na primeira metade da década de 1990, e o Instituto Dragão do Mar de Arte e Indústria Audiovisual na segunda metade da década de 1990. Em ambos a Casa Amarela e o Cine Ceará, sob a batuta de Wolney Oliveira, tiveram uma presença seminal – a Casa e o festival geraram esses projetos, assumidos com magnanimidade pela Universidade Federal do Ceará e pelo governo do Estado, na pessoa do histórico Secretário da Cultura Paulo Linhares – O Cine Ceará transformou-se na luminosa vitrine do projeto Dragão do Mar que, como bem afirmou Alexandre Barbalho em um dos seus ensaios, “apontava para o novo século, diferenciando o Ceará, e por extensão o Brasil, no espaço mundializado de produção imagética”.

A importância fundamental (cultural, econômica, social) do Cine Ceará no avanço cearense em direção ao seu sonho e vocação foi e continua sendo a postura, a atitude do festival. Suas transformações ao longo de duas décadas tiveram a ver com a ratificação e o desenvolvimento das suas linhas mestras: cinema independente, cinema jovem, indústria e democratização audiovisual. Se somarmos a isso o foco simultâneo na atividade audiovisual local e na internacionalização, temos um modelo de política pública que deveria ser adotado por todos os países emergentes e periféricos. Uma política que o governo brasileiro adotou a partir de 2003 (talvez por isto o jornalista João Carlos Sampaio tenha dito que se trata do “mais brasileiro dos festivais de audiovisual”).

Nessa moldura, o que temos hoje é um festival onde o aboio de um cangaceiro sobrevivente (cena inesquecível em 2009) ocupa o mesmo espaço, físico e simbólico, da Globo Filmes explicando qual é seu negócio. Onde filmes polêmicos, experimentais, escolares dialogam com a linguagem consagrada dos mestres. Onde vídeos populares, feitos por não cineastas, do programa Revelando os Brasis convivem com filmes destinados ao mercado comercial, a lançamentos nos grandes circuitos. Onde a dualidade “filme é arte, cinema é indústria” encontra pontos de encontro e interseção. Enfim, um festival que busca explicitar a complexidade, a diversidade e a beleza do cinema da nossa pátria audiovisual, que começa na Península Ibérica, passa pela África e se estende do México a Argentina. Um festival que também poderia se chamar Cine Convergência.

 

 

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